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Não voltei decepcionada da Rio+20

Muhammad Yunus na Rio+Social

Durante dez dias líderes globais e sociedade civil se reuniram no Rio de Janeiro para a Conferência Internacional de Desenvolvimento Sustentável, a RIO+20. Infelizmente pouco caminhamos no objetivo de definir compromissos e metas em prol do que a ONU chamou de economia verde. Mas confesso que não voltei deste encontro tão  decepcionada.

Não podemos dizer que se repetiu na RIO+20 o temido fracasso da COP-15, mas o documento final aprovado pela Cúpula das Nações foi pouco ambicioso (eu diria que nada), e não atendeu as principais  reivindicações dos ambientalistas, como um tratado que substitua o Protocolo de Kioto e a criação de um fundo para financiar o desenvolvimento sustentável.

Decepcionante? Para quem depositou muitas expectativas sim, o que não era o meu caso.  No início de 2011 no debate perspectivas para a Rio+20 com o economista Sérgio Bessermann, ouvi de um dos participantes que a cúpula caminhava para ser uma encenação de cartas marcadas. Na época achei meio exagerado, com a crise nos países chamados por desenvolvidos, nos primeiros dias da Rio+20 já  víamos indicios de que tal receio seria confirmado.  Leia a reflexão do @zeoffline sobre o pífio  documento aprovado.

Apesar disso, acredito que o saldo foi positivo. Se em 1992 o tema era visto com um certo distanciamento pela sociedade – meio coisa de ecochato sabe? – o principal destaque foi o engajamento da sociedade civil. Se em 1992 teve somente um evento paralelo, o Fórum Global, na Rio+20 foram centenas.  Foram milhares de pessoas participando de conversas, debates, workshops, protestos e mobilizações, mostrando que a sociedade está disposta a participar ativamente da construção de uma sociedade mais sustentável, participativa e inclusiva.

A minha Rio+20 foi exatamente ligada a quem fomente micro-revoluções, se bem que o projeto de de micro-crédito do Nobel da Paz Muhammad Yunus que esteve presente na Rio+Social não pode ser chamada de micro-revolução não é mesmo? É impossível contabilizar a quantidade de pessoas beneficiadas   pelo sistema de crédito popular criado por ele nos anos 70 em Bangladesh, e que inspirou tantos outros como o Banco Pérola aqui no Brasil.

A Rio+Social era um evento internacional que debatia como o uso da tecnologia e das redes sociais podem ajudar a desenvolver soluções sustentáveis e mais inteligentes para construir um mundo melhor. Neste contexto não podia faltar a presença do Rene Silva, jovem empreendedor que promove micro-revoluções no Complexo do Alemão, e tudo começou com um jornal de bairro e o uso do Twitter durante a ocupação em 2010.

O protagonismo juvenil é uma das caras desta mudança, e as redes sociais tem fomentado “primaveras árabes” pelo mundo a fora. No post da @samegui, ela lembrou que alguns continuam entoando que “o Brasil é o país do futuro”, este futuro estamos construindo agora.

Saindo da conversa, no meu segundo dia de Rio+20 conheci a D. Ana Marcondes fundadora do Centro Comunitario Lidia dos Santos no morro dos Macacos. Sabe aquelas pessoas inspiradoras? Moradora da comunidade há mais de 40 anos, não ficou esperando as autoridades fazerem algo para melhorar a vida da comunidade, arregaçou as mangas, e hoje atende cerca de 500 pessoas entre crianças, adolescentes e adultos. Acompanhei o @avidaquer na visita que uma delegação de Atlanta fez ao três coletivos coordenados por ela e apoiados pelo Instituto Coca-Cola, depois faço outro post com mais detalhes, no CEACA funciona o 1stJOB de formação para o primeiro emprego, o Coletivo Reciclagem e o Coletivo Artes que gera renda para a comunidade.

No último dia visitei a comunidade de Santa Marta, a primeira pacificada do Rio de janeiro. Fomos  ciceroneados pelo Edimar, pintor e instrutor do programa Tudo de Cor. Uma das primeiras revitalizações promovidas pela iniciativa, foi exatamente na Santa Marta, e agora o projeto busca formar novos profissionais. Só quem já participou de projetos similares, sabe o quanto revitalizar uma região impacta no sentimento de pertencimento da comunidade, algo essencial para promover transformações locais.

Edimar, @samegui, @AlineKelly e @blogdati em-visita-a-Santa-Marta-RJ.

Infelizmente não consegui participar da Cúpula dos Povos, pois fiquei pouco tempo no Rio de Janeiro. Mas a Érica Sena contou no @pensareco  o que viu, inclusive o que não gostou. O @ColunaZero fez um balanço dos eventos paralelos e vale a pena conferir. Abaixo uma citação do Bruno Rezende que ilustra bem a importância de eventos que fomentem a participação social:

Acredito que a Rio+20 e seus eventos paralelos deveriam deixar o legado da permanência. A frequência de eventos que discutem sobre desenvolvimento sustentável tem que aumentar e se espalhar por outras cidades do país. Assim seria possível elevar o nível dos debates, gerar informação de qualidade e engajar a sociedade

Sei que para muitos parece otimismo exacerbado, mas um futuro mais sustentável irá depender da nossa participação, das nossas ações, mesmo que pequenas, impactando somente a nossa comunidade, os nossos amigos. Não podemos esperar que a mudança venha de decisões burocráticas dos lideres globais. Nós precisamos construir colaborativamente este futuro que queremos, fomentando discussões, inspirando, promovendo a mudança assim como fez D. Anna no morro dos macacos. Depende muito mais de nós, do que de um processo burocrático como a cúpula oficial.

Não saio decepcionada, ao contrário. Saio confiante que muitos outros acreditam que uma nova sociedade é possível, e lutam por isso. Não se dobram a convenções e formalidades (veja o desabafo do @diegolobo que abdicou de sua credencial oficial), idealistas, que compartilham e fomentam inspirações para um mundo melhor, isto é sustentabilidade 2.0.

Fica claro que a mudança não virá através de promessas políticas otimistas, mas de pessoas comuns, como eu e você, que estão buscando uma consciência mais igualitária, solidária e desprendida dos destrutivos valores consumistas que nos cercam via @colunazero.

 

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