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Mudança de hábitos

Recentemente, estive em um evento promovido pelo Greenpeace em São Paulo. Na pauta do encontro, um acordo histórico entre líderes empresariais dos maiores frigoríficos do país, para conter o desmatamento na região da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão). Obviamente, a Amazônia era o foco do encontro, mas foi o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, quem compareceu. E isto é emblemático.

Festejado anteriormente como um dos maiores empreendedores do agronegócio nacional, Maggi passou a receber, no intervalo de poucos anos, epitetos pouco atraentes (um dos mais conhecidos é "defensor de motosserra"), relacionados à sua postura em relação à primazia do crescimento econômica ante as demandas do meio-ambiente. Tal qual a mudança na imagem pública do governador,  empresas como JBS-Friboi, Bertin, Marfrig e Minerva, que se avançaram com sucesso no mercado externo graças à excelente vantagem comparativa existente no Brasil para a criação de gado de corte, encontram também hoje um sério revés associado às suas marcas.

O que se percebe é uma maior preocupação relacionada ao impacto do agronegócio no meio-ambiente. Alguém poderia questionar se ambos não estariam vinculados, dado que a produção pecuária e agrícola, por si só, dependem completamente do meio-ambiente. Mas tudo depende do meio ambiente, como poderão dizer os estudiosos da ciência ambiental. E é por isto que o impacto do agronegócio é motivo de preocupação. O modelo de negócio das organizações agroindustriais, tal qual o modelo de negócios das indústrias tradicionais, revela um impacto significativo na redução da biodiversidade e no aumento dos gases de efeito-estufa, e a nossa parcela de culpa no aquecimento global acaba sendo aqui revelada.

Graças às queimadas, desmatamento, e emissões de metano do rebanho bovino, temos uma considerável participação no fenômeno global das mudanças climáticas. E esta informação ultrapassa as fronteiras nacionais, graças aos esforços de ONGs comprometidas principalmente com a preservação da Amazônia, alvo na nova fronteira agrícola, onde as terras boas e baratas permitem a produção extensiva do gado de corte, cuja carne será consumida não somente no Brasil, mas também no mercado externo.

Diferente de parte dos consumidores brasileiros, os consumidores no mercado internacional (leia-se os países desenvolvidos) assumem cada vez mais protagonismo nas questões de mudança de seus hábitos de consumo, para adequarem-se a um novo cenário global, onde a mudança do clima, graças ao aquecimento global, passa a ser alvo de severas discussões na esfera política e na sociedade. Pressionadas por estas mudanças, as empresas multinacionais adotam práticas mais rigorosas junto aos seus fornecedores, para que possam atender adequadamente a estas exigências.  E assim voltamos para o Brasil.

A maior rede varejista do planeta, o Wal-Mart, estabeleceu uma mudança na sua política de compras, e determinou que os seus fornecedores (leia-se aqui os frigoríficos nacionais) não adquirissem qualquer matéria-prima (leia-se aqui gado) que tivesse algum impacto no desmatamento da Amazônia (leia-se aqui os incentivos financeiros para a derrubada de matas para a formação de pasto). A explicação para o envolvimento dos frigoríficos na reunião com o Greenpeace passa necesariamente por este fato, que explica em parte a moratória da carne na Amazônia.

A outra parte é explicada por esta mudança na percepção da sociedade sobre o que é bom ou ruim (o assim chamado espírito da época). Exaltado como sinônimo da competitividade nacional, o agronegócio passa pela mesma revisão de conceitos associada a qualquer uma das indústrias e setores: ele deve necessariamente contribuir para o desenvolvimento sustentável, tendo o menor impacto ambiental possível, sem deixar de atender às demandas dos consumidores.

O encontro do Greenpeace em São Paulo foi importante por isto. Mostrou que a sociedade, por meio da mudança de seus hábitos de consumo, tem acenado vigorosamente para que as empresas, tomando ações enérgicas para resolver um problema comum a todos nós. Se os consumidores, deixando de comprar produtos com elevado impacto ambiental, podem definir o fracasso de uma empresa, da mesma forma os eleitores se lembrarão, no mercado político, dos governantes que participarão da COP15 em Copehagen. E tenham certeza: nós lembraremos.

Post participante do Blog Action Day 2009 – Mudanças Climáticas

Jeovan Figueiredo, professor universitário, consumidor e eleitor.

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Um comentário sobre “Mudança de hábitos

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