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Seria a reorganização das escolas estaduais de SP uma cilada?

Quando a Secretária Estadual de Educação de SP  anunciou que as escolas seriam reorganizadas para atender a ciclos únicos,  confesso que fiquei animada.  Meus filhos estudam em escolas de ciclo único (Básico I e Ensino Médio),  e na minha experiência tenho considerado bastante positivo (apesar de pouco prático para mim),  pois a escola consegue focar seus esforços nas necessidades específicas de uma faixa etária e de conteúdos específicos.

Mas não demorou muito para perceber que parece que aí tem cilada! Começou a surgir informações de escolas que seriam fechadas (Oi? Mas a maioria não estão super lotadas?).  E como o processo de “reformulação”  está sendo bem pouco ( nada na verdade)  transparente,  o descontentamento ganhou força,  assim como as notícias de escolas possivelmente fechadas em diversas regiões (as imagens que ilustram este post são da manifestação que aconteceu hoje na Av. Paulista).

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Foto: Folha, link acima.

Como muitos,  ainda não consegui informações oficiais sobre,  mas achei bem relevante a reflexão que o professor Philippe  Arthur,  que atua em uma escola estadual da zona leste,  postou em seu perfil no Facebook.  Reproduzo abaixo na íntegra coma devida  autorização:

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Foto: Philippe Arthur

Entre os professores da rede pública estadual paulista, vem sendo questionado e debatido o projeto de “reorganização” do ensino público administrado pelo Governo do Estado de São Paulo. Infelizmente as poucas informações a que temos, baseia-se quase que exclusivamente da ação do Sindicato dos Professores- APEOESP – em repassar o que sabe sobre o que as medidas da Secretaria de Estado da Educação, que em seu site oficial e página do Facebook, quase não informa o que seria oficialmente este projeto.

Algumas considerações que devemos trazer em pauta:

1 – O que o governo diz sobre esta chamada “reorganização”?
Haverá a transformação das escolas em um único ciclo (Ensino Fundamental I, Ensino Fundamental II ou Ensino Médio), de forma que aos poucos o ensino em tempo integral seja aplicado. A proposta é boa, mas e cadê a consulta com os alunos e alunas, os profissionais que os acompanham diariamente, e com os responsáveis diretos pela comunidade discente, como mães, pais, avós, avôs, tias, tios, primos, primas, irmãs, irmãos, enfim, com a família?

2- Sobre o período noturno:
Ao que tudo indica, o período noturno será fechado. Já foram mais de 3.300 salas de aula fechadas, segundo dados da APEOESP, o que ocasionou a transferência de muitas alunas e alunos para outras escolas, períodos, e mesmo a evasão daqueles que necessitam trabalhar durante o dia.
Já não é de hoje que o período noturno das escolas necessita de uma reformulação, tanto pela má qualidade de ensino que há (estrutura, falta de água, cansaço daqueles que lá estão), como pelo esquecimento que a gestão das escolas, de muitos professores e mesmo de alunos e alunas que fazem da escola uma zorra, que vai desde o consumo de drogas ao perigo de muitos serem reféns do que pode ocorrer nas redondezas das mesmas. Para o governo, a solução é simples: apenas fechar o período noturno.

3- Fechamento de outras salas de aula:
Já é de conhecimento de todos e todas que a partir do momento que uma sala de aula é fechada, os alunos e alunas que ali estavam matriculados, serão remanejados para outras salas ou escolas, e se não estiverem contentes que se desliguem da rede.

Há um outro ponto a se destacar: quando se fecha “apenas” UMA sala, todos os professores e professoras da escola “rodam”, pois aqueles que são os últimos da escala, não conseguirão atingir o número mínimo de aulas para serem ministradas, e têm de obrigatoriamente, procurar outra(s) escola(s) para ter sua jornada atendida. Exemplo: No Estado existe uma obrigatoriedade de todo professor ministrar no mínimo 19 aulas por semana. Uma escola que ocasionalmente tenha 20 salas de aula de ensino médio, e cada sala com duas aulas semanais de História, são 40 aulas desta matéria disponíveis. Se existem mais de dois professores de História, o que acontecerá com o 3º? Isso mesmo, ele não conseguirá atingir sua jornada mínima e terá de se deslocar para outras escolas. Foi o que aconteceu comigo este ano, pois na escola que sou concursado, sou o 6º na escolha (há uma ordem, daqueles que têm mais tempo no magistério, escolhem primeiro), e tive de me “contentar” com 18 aulas nela (em três turnos), e completar obrigatoriamente minha jornada com mais duas aulas em outra escola.

4 – E sobre a mudança de alunos e alunas para outras escolas?
Os alunos e alunas que tiverem de mudar de escola, sofrerão mais uma vez com a super lotação das suas salas (só lembrando que ano passado, as turmas de 3ºs anos da Escola Estadual Carlos Gomes, chegaram a ter de 50 a 60 alunos matriculados, sendo que quase todos os dias havia uma maratona na busca por cadeiras e carteiras por salas que eventualmente podiam sobrar).
Temos de destacar que ao que tudo indica, só na Diretoria de Ensino Leste 2 serão FECHADAS seis escolas:
– E.E. Aurélio Buarque de Holanda;
– E.E. Pedro Brasil Bandecchi;
– E.E. Henrique Smith Bayma;
– E.E. Astrogildo Arruda;
– E.E. Professora Laurinda Rodrigues Pereira Leite;
– E.E. Caetano Zamiti Mammana.
Infelizmente NADA, NADA está sendo repassado nem para os professores e professoras, alunos e alunas, e muito menos para os seus responsáveis. As gestões das escolas se manifestam dizendo para ficarmos tranquilos, que tudo se resolverá, ninguém será atingido, tudo é em favor da melhoria da Educação.

Trata-se de um dos maiores golpes que o Governo Geraldo Alckmin fará na Educação Pública Paulista, que, em nome de uma redução de gastos (sim, a indústria de São Paulo está passando por uma crise, a quem o governo irá atender primeiramente então?), coloca uma nova feição à educação.

Recentemente, os alunos e alunas do Carlos Gomes fizeram um ato na frente da DE Leste 2, e segundo relatos constantes no Facebook deles, até polícia os escoltou para que fosse um “protesto pacífico”. O que na verdade deve ser lido como: os alunos também tem força, visibilidade e atraem a atenção, logo, ter a companhia daqueles que mais matam no mundo (também é bom trazer à memória que a PM paulista é responsável por este ato truculento em nosso Estado, e vangloriam o título), seria uma questão de “segurança”.

Ficam alguns questionamentos e vontades de um professor que atua há quase cinco anos da rede pública estadual, e que assim os ALUNOS E ALUNAS, SEUS RESPONSÁVEIS, e principalmente seus colegas de profissão, atuem de maneira contínua ao que vem ocorrendo em nosso Estado.

Vão às Diretorias de Ensino procurar se informar, obter documentos que comprovem o que as pessoas dizem, solicitar que seus pedidos sejam protocolados e respondidos (sim, se você protocola uma pergunta em qualquer setor público, deve obter ter uma resposta também POR ESCRITO).
Enviem emails e informes nas páginas das redes sociais da Secretaria de Estado da Educação, questionando o que, quando e como pode ocorrer as mudanças.

Participem ativamente dos grupos que lhe representam:

ALUNOS E ALUNAS: Formem e fortaleçam seus grêmios estudantis, não dependam de ninguém. Reúnam-se nas bibliotecas, nas ruas, nas casas de vocês, e discutam propostas,alternativas, a ação e voz de cada um de vocês dentro das unidades escolares. A Educação é uma conquista social, um direito que foi assegurado a partir da Proclamação da República em 1889, e afirmado por meio da sua Constituição em 1891; fora expandida pela formação dos grupos escolares durante o governo Getúlio Vargas, entre os anos de 1930 e 1945; ampliou-se com o governo JK nos anos 1950, e com a ditadura civil-militar dos anos 1964 e 1985 sucateou-se totalmente, com a extinção das disciplinas de Humanas (História, Geografia, Sociologia, Filosofia e Psicologia). Sem contar os ridículos planos de alfabetização com o MOBRAL.

RESPONSÁVEIS: As APM’s (Associação de Pais e Mestres), ainda é são as maiores instâncias de representação dentro das escolas, e que pode trazer em debate o que os pais e mesmo outros familiares dos alunos e alunas pensam, questionam e desejam para o andamento das unidades escolares. Vão às reuniões bimestrais, perguntem, procurem entrar em diálogo juntamente com os professores e a gestão da sua escola para que assim haja um movimento unificado.

PROFESSORES E PROFESSORAS: Bem sabemos que nosso sindicato não nos representa verdadeiramente, ele é falho, não tem 100% de aprovação. Mas não é por isso que vamos cruzar os braços e assistiremos passivamente o que vem ocorrendo. São nossas vidas profissionais que estão em jogo. Sim, vida profissional. Devemos lutar por melhores condições de trabalho, ventiladores nas salas de aula, cadeira para sentar, salas bem equipadas, material didático de qualidade, bibliotecas (não salas de leitura), salas de informática, anfiteatros, um salário digno (receber pouco mais de um salário mínimo e meio para mim é pouco), ter a garantia de aposentadoria, lutar pelo vale refeição!
Nós, enquanto categoria profissional, bem sabemos que essencialmente no período da Ditadura Civil Militar o professor foi jogado ao relento pelos governos (e no caso de São Paulo, bom lembrarmos que um dos seus governadores foi o Paulo Maluf), e ainda hoje sofremos as consequências. Não, não vamos afundar! As assembleias são os locais que mostramos nossa força de conjunto, e são nestes espaços que discutimos em conjunto o que desejamos.

Ficou muito claro que após a greve deste ano, uma pequena luz sobreveio para muitas pessoas, essencialmente no que tange à forma como a Educação vem sendo tratada pelo governo estadual, e de como até mesmo profissionais do nosso setor pulam de galho em galho para ter seus objetivos e promoções alcançados, nem que seja puxando o tapete dos seus colegas.

– Por uma gestão e participação ativa de toda a comunidade escolar nas decisões da escola!
– Pelo não fechamento de salas de aula e escolas!
– Pela não abertura de presídios, e em favor da desmilitarização da Polícia Militar! 1964 nunca mais!
– Por um salário digno aos professores estaduais!
– Por uma Educação Pública, Gratuita, Laica e de Qualidade!

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