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Qual foi o propósito do 15 de março?

Os protestos de junho/2013 tinham uma pauta clara: a redução da tarifa de transporte público.

Clara, objetiva e alcançável.

Tanto que: conseguimos!

A partir do momento em que as pautas passaram a ser difusas, confusas e subjetivas o movimento foi se desfazendo, até que sobrou apenas a história e um sentimento de: conseguimos que hoje se mistura à frustração de saber que no fundo, não conseguimos nada (ou quase nada!).

Luta por ética e contra a corrupção é algo que me lembra a Grécia antiga, e aquelas discussões sobre valor, moral, onde no fundo faço valer as palavras de Nilton Bonder “O ser humano é talvez a maior metáfora da própria evolução, cuja tarefa é transgredir algo estabelecido” (in Alma Imoral, Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.15).

Vamos falar sério agora:

Como se luta contra a corrupção e se alimenta o trabalho escravo comprando roupas de marcas?

Como se luta por ética e se compra animais oriundos de canis onde eles são usados como máquinas pra produzir aquela espécime que você tanto deseja e que está disposto a pagar alguns mil reais por isso?

Como se luta, cidadão e cidadã de bem, por igualdade quando você no fundo não percebe que as leis claramente diferenciam as pessoas e aprofundam as desigualdades?

Como se luta por educação de qualidade quando você não deseja que pobres ocupem suas cadeiras nas universidades públicas?

Vamos! Me diga!

A luta, meu caro, é todo dia!
Todo dia!

Quando você vai às ruas e aceita que o camarada ao seu lado pregue o feminicídio, você está sendo conivente.
Quando você vê um cara com uma suástica e não o repreende, você está sendo conivente.
Quando você vê um cidadão que deseja o linchamento de gays e lésbicas, você está sendo conivente.

CONIVENTE!

E a conivência é uma das milhares de raízes que produz e aprofunda a corrupção no mundo todo, pois é a conivência que dá forças para que os corruptores sejam ainda mais corruptos, para que eles usurpem o meu e o teu direito (eu disse DIREITO!) de lutarmos por pautas objetivas e as alcançar.

E agora?
Agora que a festa acabou, e que as luzes se apagaram, o que resta? Cidadãos saciados de exporem seus ódios (assim, no plural)?

Agora a polícia vai deixar de matar inocente na favela?
Agora eu vou ter direito à educação pública de qualidade, mesmo morando no extremo da zona leste de São Paulo?
Agora eu vou ter os mesmos direitos de acesso à cultura e de forma gratuita? O que inclui assistir a espetáculos renomados e financiados por leis de incentivo que deveriam “democratizar o acesso”?

Me digam! Por favor, me respondam! E agora?

Agora que vocês descobriram que existe um conselho no seu bairro que discute questões importantes do lugar onde você mora, agora que você deixou de ser um manifestante-fake-hashtag-qualquer-coisa e tem orgulho de ser brasileiro, agora eu posso acreditar que o Brasil deixará de ser um país de futuro e passará a ser um país do presente, onde eu não precisarei me sujeitar a situações constrangedoras para ser vista como mulher, como gay, como índia, como… indivíduo?

Agora eu posso?

Ocupemos os espaços de decisão e participação política de maneira crítica, saudável. Conviva com o alheio a você. Conheça as diferenças e aprenda a respeitá-las como pontos de vistas. A luta é todo dia por isso. E também por isso eu pergunto: e agora?

 

 

Vanessa Camargo

 

 *Texto escrito por Vanessa Camargo, 26 anos, administradora de empresas, mãe de 3 gatos, moradora de Itaquera,  trabalha em projetos socioambientais e de protagonismo jovem.

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